Dr. Manuel do Nascimento Fernandes Távora, provindo dos sertões de Jaguaribe-Ceará, onde nasceu em 21 de março de 1877, buscou o saber para triunfar, através de uma formação intelectual e espiritual, que se inicia aos sete anos, em uma escola primária, dirigida pelo Professor Lino Aderaldo. Cursa, um ano depois, uma segunda escola do mesmo grau, em Crato, ingressando então, já aos nove anos, no Colégio São José, naquela cidade, que gozava de um extraordinário conceito.
Três anos decorridos, vem para Fortaleza, onde aprofunda os seus estudos de Humanidades: primeiro no acreditado Instituto de Humanidades e depois no grande Liceu do Ceará.
Aos dezenove anos, transfere-se Fernandes Távora para a cidade de Recife, onde frequenta o Instituto Benjamin Constant e faz os preparatórios em um curso anexo à tradicional Faculdade de Direito de Recife. Concluídos os preparativos, parte para a Bahia, pois a vocação que embalava o seu espírito, desde criança, era a de ser sacerdote de Medicina.
Passa somente um ano na Bahia (1897-1898), transferindo-se então para a Metrópole, onde reinicia seus estudos na ínclita Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde colou grau em 1902. Antes, porém, diploma-se em Farmácia, na mesma Faculdade.
Ousado, defendeu tese de doutorado sobre Telepatia, tema à época original, entretanto impugnado pela comissão organizadora, porém reconhecida pela comunidade científica internacional, com opiniões favoráveis de laureados com o Prêmio Nobel, por membros da Royal Society e especialmente por físicos da Academia Soviética de Ciências.
Em julho de 1904, embarcou rumo ao Amazonas, onde, durante dez anos, foi generalista, pelos caudalosos afluentes do “rio-mar”. Seu transporte era um batelão onde, próximo à proa, havia a identificação “Ambulância Dr. Távora”.
Durante dez anos percorreu, em várias direções, aquela imensa região, para dar assistência a seringueiros desafortunados.
Sempre que podia, partindo do Amazonas, viajava rumo à Europa, onde fazia reciclagem em seus conhecimentos técnicos, aperfeiçoamento de Clínica Médica e Cirurgia, na Faculdade de Medicina da Universidade de Paris, em hospitais da Bélgica, bem como em Berlim (1914), com o afamado otorrinolaringologista Professor Weinergertner, quando identificou-se com essa especialidade.
No seu retorno ao Ceará, exerceu sua profissão durante muito tempo, tendo também se dedicado a uma carreira política local e nacional de sucesso, que inspirou seu filho, Virgílio Távora, ilustre senador e governador, por dois mandatos, do nosso estado.
Foi eleito, em 1929, Presidente do Centro Médico Cearense, tendo a este proporcionado grande relevo no País, graças ao seu prestígio e cultura incontestes.
Por seu valor profissional e conhecimento geral da Medicina, foram-lhe conferidos, entre outros, a Medalha de Mérito Médico, o título de Patrono do Colégio Internacional de Cirurgia e a Medalha de Honra ao Mérito da Sociedade de Patologias.
Apesar de sua longa militância na Política, não renunciou à prática de medicina em seu muito bem aparelhado consultório em Fortaleza.
Do mestre Livino Pinheiro, à beira do túmulo de Fernandes Távora, falecido em Fortaleza em 23 de setembro de 1977, cito: “Deixou a vida, parecendo a todos que o conheciam e o admiravam, um velho e destemido guerreiro, cansado de inúmeras batalhas, mas aureolado de muitas glórias e majestosa dignidade”.
José Eduardo de Carvalho Gonçalves