Academia Cearense de Medicina

Desde 1978

José Cardoso de Moura Brasil


Moura Brasil, considerado o “Príncipe da Cirurgia Oculista” no Brasil, nasceu no Ceará no pequeno povoado de Caixa-Só (Quixocó), hoje vila de Iracema, município de Pereiro, localizada nos contrafortes da “Chapada do Apodí”, em 10 de fevereiro de 1846, filho do tenente-coronel José Cardoso Brasil e de Theresa Maria de Moura Brasil.

Com um alto espírito de escolaridade, de logo o menino João Cardoso se distanciou, por sua inteligência privilegiada, dos irmãos e demais colegas de classe, daí, ter sido encaminhado à capital da província Fortaleza.

O “Seminário da Prainha” em Fortaleza foi quem deu guarida ao nosso biografado. Renunciado ao Seminário em 1865, matriculou-se no “Liceu do Ceará”, tendo permanecido pelo espaço de dois anos.

Terminado que foi o seu curso, não mais desejou retornar ao sertão de origem e sim ser medico, contudo não era essa a idéia de seus pais e em 1866 embarcou para a cidade de Salvador e em seguida terminou os seus preparatórios para entrar na “Faculdade de Medicina” e em 15 de março de 1867 matriculou-se na Faculdade de Medicina da Bahia.

Ao ter acesso ao 5º ano médico, Moura Brasil teve sua atenção voltada para a Oftalmologia, procurando nessa ocasião a Clinica do Dr. José Lourenço de Magalhães, renomado especialista da época. Ao término de seu currículo acadêmico, a sua defesa de tese perante a Faculdade de Medicina da Bahia foi: “Tratamento cirúrgico da catarata”.

Moura Brasil recebeu o grau de Doutor em Medicina em 30 de novembro de 1872. No mesmo dia em que recebeu o grau de Doutor em Medicina, contraiu matrimonio com D. Maria Eulália Machado.

Em Salvador o casal permaneceu até 1873, quando, a conselho de seu mestre e amigo, Dr. José Lourenço de Magalhães, deixou a Bahia em demanda do Velho Mundo e levando recomendações endereçadas aos luminares da nova especialidade a que se dedicava desde a vida acadêmica: a Oftalmologia.

Em Paris, para onde se dirigiu de início, procurou contato com os mais eminentes especialistas do assunto, sua preocupação precípua era adquirir conhecimentos com vários expoentes da oftalmologia mundial: De Wecker, Mayer, Galezowski e outros.

De Wecker logo percebeu a habilidade operatória de seu discípulo, daí o convite para chefiar a sua clinica. Aceitando-a aí permaneceu ate o não de 1875. Além disso, ele aumentou seu cabedal de conhecimento frequentando outros serviços dos professores Arlt, Jaeger, Stalevag, de Carlos e Fuchus, em Viena (Áustria). Em Londres, recebeu ensinamentos de Bowmau, Leoberg, Well, Critaket, Bader, Power e outros. Durante três anos foi a sua peregrinação pelos centros oftalmológicos europeus, até se capacitar de que poderia retornar ao Brasil.

Enquanto a família se dirigia para Salvador ele rumava para o seu Ceará, chegando à cidade de Fortaleza, em agosto de 1876, com festiva recepção.

Nesse período de 1876, ele atendeu ricos e mendigos indistintamente num número aproximado de mil pacientes, sendo que cerca de quinhentos foram operados de catarata. Na Santa Casa de Misericórdia realizou 51 operações (oftalmocirurgias) sendo duas dessas com a mão esquerda pelo ambidestro oculista. Dedicado e extremamente compreensível, assim atendia a todas as classes sociais e quase que de ninguém recebeu honorários, dizendo que assim procedia em retribuição à graça de ter nascido cearense.

Em 5 de outubro de 1876 a sociedade cearense lhe ofereceu um baile com traje a rigor. Era assim que o Ceará, estremecido, se despedia de seu filho tão valioso e tão humano deixando saudades, partiu para o Rio de Janeiro.

De início, Moura Brasil, instalou o seu consultório à Rua do Ouvidor n. 51 – 1º andar, onde, permaneceu a vida toda de seu exercício pleno das atividades de medico oftalmologista. Começou a ocorrer ao seu consultório, verdadeira legião de doentes em busca daquele que, por sua bondade, competência e dedicação, tinha sido cognominado o “Médico dos Pobres”.

Dotado de duas forças formidáveis em suas mãos: a ciência e a caridade, não se deteve enquanto não contribuiu com o seu trabalho na fundação da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, ideia esta que ele acalentava desde que frequentava as Clinicas em Viena.

Em 10 de dezembro de 1881 foi assinada a Ata de Criação da Policlínica do Rio de Janeiro, e que nesta reunião na casa do Dr. Carlos Artur Moncorvo de Figueiredo, Moura Brasil foi escolhido, então, Chefe do Serviço da Oftalmologia da novel organização.

Em 14 de dezembro de 1885, Moura Brasil foi escolhido, Diretor da Policlínica e assim foi reeleito até sua morte por seus colegas de Conselho. O tracoma foi estudado pelo nosso biografado com muita dedicação, pois esta doença causava uma implacável devastação aos seus conterrâneos, chegando à conclusão que o “nitrato ácido de mercúrio” era o medicamento especifico para o tratamento desta doença. Ao longo de suas pesquisas, encontrou no “acido pícrico” o recurso terapêutico eficaz para a zona oftálmica desta doença.

Nas operações plásticas de par com as operações para a correção do estrabismo, ele se notabilizou como um verdadeiro artista tão notável era sua habilidade manual. (era ambidestro). Assim é que de uma estatística de seus serviços, entre 1875 a 1901, num período de 26 anos, ele realizou 1.340 extrações de catarata senis, sendo 1.275 simples e 65 com iridectomia. Em 1888 já se tornara membro titular da “Academia Imperial de Medicina”, pois concorrera a uma vaga em outubro de 1882, apresentando uma memória cujo titulo era: “Tratamento da Conjuntivite Granulosa Aguda e Crônica pelos Abrus precatorius (Jequitiri).

Moura Brasil foi eleito Presidente da Academia Imperial de Medicina. Fora da Medicina ele se identificou também na agricultura e pecuária, após ter comprado em abril de 1890 uma fazenda denominada “Três Barras” no município de Paraíba do Sul (Estado do Rio). Nessa época tanto era seu entusiasmo por essas atividades que chegou a ser “Presidente da “Sociedade Nacional de Agricultura” em 1901, bem como chegou a exercer, também a “Presidência do Centro de Lavoura do Café”.

Chegava assim Moura Brasil ao seu Jubileu profissional, e em 1º de agosto de 1913 seus admiradores mandaram erguer uma erma em bronze, que ficou fixada no edifício da Policlínica Geral de Rio de Janeiro. Durante os 50 anos de perene e abnegada atividade médica nesta Policlínica, ficou constatada a avultada soma de um milhão de consultas e quase 100.000 doentes e praticado no mesmo período 15.000 operações.

Em 1922 ele completava o seu jubileu profissional tendo a oportunidade de receber homenagens da Academia Nacional de Medicina.

Moura Brasil morreu na noite de 31 de dezembro de 1928, aos 82 anos. Continuaram sua obra no Rio de Janeiro, numerosos oftalmologistas descendentes do ilustre cearense, formadores de verdadeira dinastia. Além de médico oftalmologista ele foi químico, farmacêutico e pesquisador. Pelo seu reconhecido trabalho em prol da oftalmologia, em sua homenagem até hoje é comercializado no país inteiro um colírio como seu nome, o famoso “Colírio Moura Brasil”.

Roberto Misici

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Cargos, funções e reconhecimentos

INFORMAÇÕES GERAIS

Nascimento: 10/02/1846

Falecimento: 31/12/1928